Curaçá, pedaços de saudade.

Desvanecido recebo manifestação de Antonio Edmar de Araújo (Tuna), baiano de Curaçá, que mora em Itabuna, sobre a crônica Curaçá, pedaços de saudade*publicada neste espaço em 11/08/2017.

Edmar é filho ilustre de D. Nenzinha, ícone da cultura curaçaense o que, por si só, lhe engrandece diante de seus conterrâneos aos quais me incluo.

Reproduzo abaixo a crônica em referência, com o intuito primeiro de evidenciar a memória das pessoas citadas e em deferência à insigne presença dos que ainda vivem. Também para fazer algumas correções necessárias, em respeito àqueles que perdem tempo em ler meus textos.

O respeito aos leitores pressupõe a publicação de textos escorreitos, inclusive no que tange à linguagem e técnicas de escrita. Confesso, não tenho conseguido. Por isto, penitencio-me diante de todos. Eis a crônica:

Curaçá, pedaços de saudade.

Primeira metade da década de 1970. Antes de morar na pensão de Maria de Fortunato (Maria de Lourdes Lopes), eu morava no Curaçá Hotel, um casarão de grandes janelas na esquina da Rua Coronel Pombinho, que traduz o estilo das primeiras construções da cidade sanfranciscana.

Os proprietários Maria Roselita Xavier e Adelson Xavier tocavam o empreendimento com dedicação. Mais parecia uma confraria entre amigos do que, propriamente, um hotel. Os hóspedes se tornavam amigos entre si, afáveis e confiáveis.

Nos fundos do casarão existia um boteco de frente para a lateral do Teatro Raul Coelho. Era lá que Adelson, Edvaldo Araujo e eu nos encontrávamos para o conhaque de alcatrão.

Adelson tinha pressão alta. Uma vez ele parou a ponte presidente Dutra, que liga Juazeiro a Petrolina. Passou mal no meio da ponte e o trânsito virou um caos. Amigo de verdade, Adelson deixou, além da saudade, algumas histórias engraçadas, que ele contava com humor e irreverência.

Edvaldo Araujo, amigo e colega de trabalho na Prefeitura Municipal, homem de caráter irrepreensível e exemplo de vida, era casado com Maria de Almeida Araujo (D.Nenzinha), a pessoa mais amável que conheci nessas décadas de vida atribulada.

À época, D. Nenzinha exercia o cargo de delegada escolar de Curaçá, função muito respeitável nos quadros da Secretaria de Educação da Bahia. Hoje, não sei se ainda existe essa função. Se existir diminuiu de importância, em proporção à deterioração do ensino, que se dá não por culpa dos abnegados professores, mas em razão de negligência do Estado.

Se não me falha a memória – e ela sempre falha – D. Nenzinha consta no livro-reportagem “Herdeiras de Feliciana: Perfis de Mulheres de Curaçá”, de autoria da jornalista e professora de História Alinne Suanne Araújo da Silva Torres, que ainda não tive a oportunidade de ler, o que é uma pena.

Nenzinha era uma conselheira diuturna dos jovens. Sentia-se bem, orientando-os. Faleceu em 24/04/2013, salvo engano, beirando os 97 anos. Tenho saudade de nossas conversas na calçada em frente de sua residência. Ao fundo, as águas tranquilas e misteriosas do Rio São Francisco.

Naquele encontrar de ruas, Astério Xavier cuidava da agência dos Correios e Juvêncio Oliveira, “seo” Maroto, se ocupava de sua venda de secos e molhados. E nesse cruzar de ruas e esquinas, surgiam os bate-papos sobre amenidades. Eram conversas despretensiosas, convidativas, interessantes.

Como falo de saudade, deixo aqui um registro: nesse tempo, Adelson Xavier Júnior era criança. Cresceu bondosamente e há pouco se retirou de nosso convívio como uma abelha que se vai subindo em direção às alturas.

araujo-costa@uol.com.br

*Hoje volto a publicar a crônica em referência, com o intuito de acrescentar duas fotografias do arquivo da família de D. Nenzinha, que me foram gentilmente enviadas por Antonio Edmar de Araújo. Vale o registro, vale a saudade.

Petistas e lulistas

O jornalista Sebastião Nery conta que Armando Falcão, que foi ministro da Justiça dos presidentes Juscelino Kubitscheck e Ernesto Geisel, candidatou-se ao governo do Ceará em 1954.

Em campanha, encarregou um deputado amigo para organizar grande comício, o que foi feito. O político providenciou palanque, som, iluminação, bandeiras e tudo mais.

Armando chegou e a praça estava vazia. Perguntou: Cadê o povo, deputado?

O amigo usou a sinceridade:

– Armando, se eu tivesse capacidade de trazer o povo para o comício, o candidato não seria você, seria eu.

Quando Lula da Silva estava prestes a ser preso, a bravateira senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, ameaçou colocar o povo na rua e até, irresponsavelmente, usou a expressão “matar gente”, se houvesse a prisão.

Lula foi preso e a população ficou silente, exceto parte desidratada da militância petista, por uma razão muito simples: no Brasil, com quatorze milhões de desempregados, ninguém acredita mais em bravatas de políticos sabidamente embusteiros e, mais, a população tem consciência dos erros de Lula da Silva, independentemente do que dizem os dirigentes petistas e seguidores.

Em visita a Lula no cárcere, sabe-se que o ex-presidente cobrou a promessa da senadora e teria perguntado pelo povo que a senadora disse que ia colocar na rua. Não se sabe a resposta. Nem tem nenhuma importância saber. O que ela fala não tem importância.

Entretanto, sabe-se que no dia de registro da candidatura de Lula no Tribunal Superior Eleitoral, o PT prometeu levar uma multidão para as ruas de Brasília. Bazófia. Foram apenas militantes dos movimentos sociais, com roupas e bandeiras vermelhas, arrebanhados pelos MST e outras organizações que apoiam o partido, aproximados dez mil, segundo cálculo das autoridades.

Há uma diferença basilar neste contexto. Lula da Silva não é nenhuma divindade, mas assemelha-se a um líder messiânico. Tem seguidores arraigados, independentemente de sua situação jurídica, preso ou solto. Quem é lulista não é necessariamente petista. Há admiradores de Lula que não gostam dos métodos do PT.

Petista é uma situação, lulista é outra, completamente diferente. Quem é lulista o é, em qualquer circunstância, incondicionalmente.

Gleisi Hoffmann ainda não entendeu isto. Não vai entender, não tem condições de entender. Sua fanfarronice a impede de raciocinar decentemente.

À semelhança do deputado cearense, a presidente nacional do PT não tem nenhuma capacidade de colocar multidões nas ruas. Se, eventualmente, pessoas forem às ruas, o farão por causa de Lula e  não a pedido de Gleisi Hoffmann.

Primeiro, o povo precisa comer, pagar aluguel, cuidar da família.

Ninguém faz política de barriga vazia.

araujo-costa@uol.com.br

A esquerda tem nomes melhores e respeitáveis

“O caráter, como os rochedos, pode ter fendas” (Victor Hugo, Os miseráveis)

O debate entre os presidenciáveis na TV Bandeirantes tinha tudo para nortear-se no caminho do alto nível, até o momento em que Guilherme Boulos resolveu insultar o deputado Jair Bolsonaro, tentando puxar o nível para baixo, sem sucesso.

Bolsonaro é capitão da reserva do Exército, da arma de artilharia e frequentou a respeitada Academia Militar das Agulhas Negras. Especializou-se em paraquedismo e, como se vê, tem bagagem suficiente para nocautear o incentivador de invasão de propriedades, que é a única coisa que Boulos sabe fazer.

Ficou clara a disposição dos demais candidatos no sentido de serem elegantes, educados, civilizados, respeitosos. Demonstraram que queriam discutir os problemas nacionais e não assuntos pessoais dos adversários.

Até Ciro Gomes optou por deixar a faísca de lado e não acender seu pavio curto e se portou educadamente, que é o mínimo que se espera de um postulante a presidente da República.

Todavia, Guilherme Boulos estava preocupado em falar da “mulher que cuida dos cachorros” do Bolsonaro e da vida pessoal do adversário e não de assuntos sérios. Inventou acusações contra o candidato Bolsonaro, que a história não registra, demonstrando total desconhecimento do período da ditadura militar, quando ambos os lados – esquerda e direita – cometeram crimes e outras atrocidades reprováveis que mancharam o Brasil.

Boulos tem obrigação de conhecer a história. É graduado em  Filosofia e ativista político, além de incentivador de invasão de propriedades.

Razoável é entender que um debate entre presidenciáveis, nesta quadra do tempo, não comporta mais piegas de quem matou quem no período do regime militar. O Brasil é outro, a sociedade exige mudanças e não um constante olhar no retrovisor da história.

Realmente, Boulos destoou dos demais candidatos. Mas não se pode esperar outra coisa dele. Um sujeito que incentiva e comanda invasões de propriedades particulares, sem nenhum respeito ao direito de quem as adquiriu, não pode primar pela decência. Mas é uma questão de caráter e cabe a ele moldá-lo, se quiser. É problema dele, unicamente. Pode melhorar.

Entretanto, vale registrar que a parte da esquerda que apóia Guilherme Boulos tem nomes mais gabaritados, em seus quadros, para representá-la na disputa pelo comando da República.

Há bons quadros, inclusive no partido político que lhe deu guarida para sustentar a candidatura.

A questão de nossos partidos políticos e lideranças nacionais é misturar democracia com esculhambação.  E mesmo em momentos mais graves, como este que o Brasil atravessa, indicam qualquer zé ruela para disputar o honroso cargo de presidente da República.

Em nosso sistema presidencialista, o eleito passa a ser chefe de governo e chefe do Estado brasileiro. Não pode ser qualquer um.

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Partidos políticos, triplex e elite suprema

“Há de o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta hipocrisia” (Shakespeare)

É indiscutível que os partidos políticos são essenciais ao exercício democrático, de modo que não existe democracia plena sem agremiações partidárias.

Todavia, não temos partidos políticos conceitualmente considerados, mas um amontoado de interesses em benefício de dirigentes, asseclas e parasitas do dinheiro público.

Nessas eleições previstas para outubro vindouro, temos clareza de sobra para entender que nossos partidos políticos são apenas incoerentes arcabouços jurídicos desprovidos de ideário, todos indiferentes às necessidades da população e de olho no bilionário fundo partidário.

Exemplo: em pelo menos 15 estados, o PT se aliou a partidos políticos que apoiaram o impeachment de dona Dilma Rousseff. Muitos desses partidos fizeram ou fazem parte da base governista do presidente Michel Temer, que os petistas dizem inimigo.

Em 2016, para o PT, esses partidos e seus integrantes eram “golpistas”, inimigos ferrenhos. Hoje são aliados de primeira hora. Onde está a coerência programática?

No Ceará, por exemplo, o canibal PT ameaça engolir seu senador José Pimentel e o proibir de disputar a reeleição, para estrategicamente permitir a vitória do também senador Eunício Oliveira, do MDB de Michel Temer, que ajudou a derrubar a petista dona Dilma Rousseff do governo.

A presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, que coordena essas composições estaduais a mando de Lula da Silva, passou a ser amiga de infância dos políticos que contribuíram para o afastamento de dona Dilma e que o PT os denominava golpistas.

Triplex

Lula da Silva está preso, por enquanto, exatamente em razão do famoso triplex do Guarujá, que ele diz nunca ter sido dele, mas a Justiça assegura que dispõe de robustas provas que dizem que é e são suficientes para condená-lo.

Ironia. Agora o PT inventou uma chapa triplex, para disputar a eleição presidencial de outubro. A chapa é composta de Lula da Silva, do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad e da comunista Manuela D’Avila. É um engendramento informal, nada mais do que isto.

Assim, não é bem chapa, mas uma expectativa de chapa, com o intuito de escarafunchar brechas na legislação eleitoral e viabilizar a eleição de Lula da Silva. É o direito de espernear, o jus sperniandi.

Ainda não se sabe onde o PT vai chegar com essa inovação eleitoral, mas isto não tem nenhuma importância. O partido é mestre em esquisitices.

A elite suprema está com miopia

O Supremo Tribunal Federal propôs incluir na proposta orçamentária de 2019 um reajuste de 16,38% nos vencimentos de seus supremos ministros, o que elevaria a despesa do Tribunal em R$ 2,77 milhões por ano e causaria um impacto sobre todo o Poder Judiciário da ordem de R$ 717,1 milhões anuais, segundo estimativa preliminar dos técnicos.

O impacto se dará também sobre Executivo e Legislativo. Em consequência, todos terão direito a aumento de vencimentos, o chamado efeito cascata, porque o teto do Judiciário servirá como parâmetro para os demais funcionários públicos das outras esferas de poder.

Parece que o Supremo Tribunal Federal está míope e não enxerga as dificuldades econômicas e sociais pelas quais passa o Brasil, tampouco os quatorze milhões de desempregados.

O STF é uma elite que está precisando de cuidados. E esses cuidados dependem da vigilância da sociedade.

araujo-costa@uol.com.br

Parte da esquerda não leva o Brasil a sério

“Nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo” (San Tiago Dantas)

Francisco Clementino de San Tiago Dantas, jornalista e advogado, considerado em sua época – décadas de 1950 e 1960 – o mais abalizado intelectual da esquerda moderada brasileira, foi deputado federal e ministro das Relações Exteriores do Brasil.

A esquerda do Brasil hoje precisa buscar a lição, ensinamento e ponderação de San Tiago Dantas: “Nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo”.

Este parece ser o caso do Partido dos Trabalhadores e aliados, ingenuidade mais do PT do que dos aliados: a insistência em manter a candidatura de Lula da Silva no quadro eleitoral de disputa à presidência da República.

Disputar é direito de Lula da Silva, isto não se discute. Contudo, para um ex-presidente da República que apregoa a todo momento a defesa da democracia é, no mínimo contraditório, rebelar-se contra as instituições nacionais, dentre elas o Poder Judiciário.

Sempre entendi que a prisão de Lula da Silva é inoportuna, tendo em vista o dispositivo constitucional que assegura aos condenados de um modo geral – e não somente a Lula – o direito de não ser preso enquanto houver recurso pendente de julgamento. E Lula tem diversos recursos à espera de decisão da Justiça.

Entrementes, o que está acontecendo não é exatamente a discussão jurídica da situação prisional de Lula da Silva, mas o movimento “sem noção” criado pelo PT sob o título “Lula livre”. Explico: a soltura de Lula da Silva não depende de paixões políticas de seus seguidores, mas de obediência ao estado de direito. Isto vale para o Brasil e qualquer país do mundo.

Insurgir-se contra a prisão injusta é direito inalienável do preso, mas para isto existem seus advogados que, no caso de Lula da Silva, são defensores de inegável astúcia e capacitação jurídica.

A Justiça mandou prender, a Justiça que mande soltar, dentro dos trâmites processuais e no momento próprio.

Não estamos em regime de exceção, como diz o PT, tampouco as instituições nacionais passam por estado crítico a ponto de a prisão de Lula da Silva, que se estriba em crime comum, ser entendida como prisão política.

Trata-se de ingenuidade partidária do PT. A sociedade sabe o que Lula da Silva fez e quem o acompanhou nessa conduta reprovável e, por extensão, sabe quais as decisões contrárias à lei e à ética que ele tomou.

Os eleitores também sabem, inclusive os de Lula que, não obstante, continuarão votando em seu nome, se a Justiça Eleitoral permitir, independentemente do que ele tenha feito.

Se a Justiça decidir que Lula da Silva deve participar das eleições de outubro, tudo bem. Mas através do caminho legal e não se subjugando a pressões destrambelhadas de seguidores lulopetistas.

O mínimo que se espera é que o Supremo Tribunal Federal obedeça à lei e aos mandamentos da Constituição da República e não se ajoelhe diante da vontade política de seus ministros.

Mandar prender após condenação em segunda instância é aberração processual e isto é o que o STF está fazendo. Não importa se com relação a Lula da Silva ou milhares de condenados que estão na mesma condição e o PT nunca defendeu.

“Pimenta nos olhos dos outros é refresco”, mas a pimenta ainda não tinha caído nos olhos petistas. Agora o PT ficou sabendo que só em São Paulo há pelo menos quinze mil presos na mesma situação de Lula da Silva. Vai defendê-los?

O PT tem juristas e mestres respeitáveis em seus quadros e sabe que a prisão de Lula da Silva não é política, mas em razão de crime comum. Qualquer estudante de Direito sabe disto. Até leigos sabem disto.

Insistir nesta idiotice é menosprezar a inteligência dos brasileiros e malícia levada ao extremo. Nada mais do que isto.

A julgar pela quantidade de ex-dirigentes petistas condenados pela Justiça, alguns presos,  é difícil acreditar que o partido esteja preocupado com o Brasil.

Como se vê, parte da esquerda não leva o Brasil a sério, mas apenas os seus bolsos,  ávidos por dinheiro público

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Curaçá: Theodomiro Mendes da Silva, uma lembrança.

Theodomiro Mendes/Álbum de Theodomiro Mendes Filho

Nossa amizade nasceu em junho de 1968 na igreja de Santo Antonio, em Patamuté.

Padre Adolfo Antunes da Silva, vigário de Curaçá, fazia alguns batizados. Theodomiro e eu estávamos presentes e ali mesmo diante das bênçãos de Santo Antonio a amizade se principiou, germinou, nasceu. Depois floresceu, perdurou, nunca morreu, não podia morrer, não devia morrer.

Já escrevi alhures sobre Theodomiro Mendes da Silva. Lembrei casos pitorescos que vivemos e até, em certos momentos, me serviram de lição, além de contentamento e estímulo para o prosseguimento da caminhada.

Há algum tempo me debrucei sobre uma tarefa ingente, mas precisei suspendê-la: a quase-biografia de Theodomiro. Quase-biografia, porque não me acho capaz de retratar, fielmente, a riqueza de sua vida, de seu caminho percorrido, de sua luta. Destemido, sabia enfrentar situações difíceis sem empurrar o adversário em direção à queda.

Seguro de suas convicções, Theodomiro não abdicava das posições que defendia, mesmo que soubesse inapropriadas para a ocasião. Ao contrário, tinha determinação para caminhar em busca do que pretendia fazer e sustentava-se em si mesmo.

Entretanto, minhas pesquisas encontraram alguns obstáculos, dentre eles a escassez de tempo para entrevistar pessoas mais próximas de seu convívio, parentes, familiares, amigos da época, quem restou do que passou. E passaram muitos.

Caatingueiros ele e eu, a diferença é que vim de um berço muito pobre, nascido nos barrancos do Riacho da Várzea, em meio a cactos e pedras disformes, amarfanhado pelas intempéries da seca e ele descendia de família bem posta e estruturada de Patamuté.

Desde jovem sempre me imbuí do intuito de guardar confidências de amigos. Talvez por isto tenha mantido alguns até hoje e outros tantos não suportaram minha pequenez e disseram adeus ao longo do caminho.

Um dia, em Salvador, Theodomiro e eu fomos conversar num bar na Rua da Ajuda, à noite, imediações da Rua Chile. Guardo gratas lembranças daquele momento: ele demonstrou impressionante generosidade, desprendimento, consideração, vontade de ajudar a quem dele precisasse. Quase uma contrição, um ajoelhar-se diante da esperança de vencer as dificuldades. Acho que chegou lá.

Contudo, isto é assunto para mais vagar, mais tempo, mais espaço, mais coragem para enfrentar o tumulto das emoções.

À época eu fazia treinamento na Secretaria de Segurança Pública da Bahia, condição exigida para assumir o cargo de chefe do primeiro Posto de Identificação de Curaçá, criado por Theodomiro em sua primeira administração como prefeito. Ele fazia questão de acompanhar meu desempenho, como se amparasse minha inexperiência e abrandasse a arrogância de jovem que queria consertar o mundo. Contente engano aquele meu. Hoje vejo os escombros do fracasso de minha geração.

Theodomiro tinha alguns amigos, não direi poucos, não direi muitos, porque não conheci todos. Um deles era Aristóteles de Oliveira Loureiro, conhecido como Tote.

Líder político incontestável, Theodomiro conseguia eleger qualquer nome que indicasse e Tote foi um agraciado. Tote era um sujeito decente, experiente, caminheiro de velhas estradas na política de Curaçá. Eles andaram juntos em determinada quadra do tempo.

A relação entre ambos situava-se muito próxima. Theodomiro era casado com D. Valdeth Conduru Mendes, mais tarde primeira-dama elegantíssima e educada, à semelhança de D. Adalice Conduru Loureiro, esposa de Tote.

De família tradicional, respeitável, curaçaense da gema, referência de seriedade e decência, Tote sabia conjecturar, engendrar, alinhavar acordos. Sorriso quase irônico, temperamento calmo, discreto, sábio, inteligente, sagaz, Tote conhecia os meandros da política de Curaçá e os dominou por algum tempo.

Aprendi com Theodomiro que não se deve misturar amizade com política. Como é difícil separar! Não dá certo, nunca deu certo, nunca dará certo. Grande lição, também aprendi a ter cautela ao ouvir conversa de político. Convém saber no que devemos acreditar.

Houve alguns episódios entre nós. Entretanto, Theodomiro e eu continuamos amigos até ele morrer. Nossa amizade não podia acabar na esquina de uma situação política transitória, insignificante, passageira.

Já morando em São Paulo, fui passar uns dias nas caatingas de Patamuté. Aproveitei para fazer uma visita a Theodomiro em sua casa em Curaçá, nas proximidades do Teatro Raul Coelho.

Conversamos muito. Conversa saudosa, calma, sem pressa de acabar. Amigo atencioso, prestativo, fidelíssimo, entendeu a visita, absorveu as lembranças, laborou nas reflexões. Nunca mais nos vimos.

Theodomiro era mestre na arte da política. Caatingueiro astuto de Patamuté, sabia engendrar, sabia articular, sabia conspirar e sabia entender o âmago das pessoas.

Li, tempos depois, um texto escrito pelo ínclito e conspícuo curaçaense Omar “Babá” Torres, que citava a sabedoria mineira: “na política, o melhor é não falar. Se falar, não diga; se disser, não escreva; se escrever, não assine, mas se tiver que assinar, assine com a mão errada”.

Honra e glória de Patamuté, Theodomiro Mendes da Silva foi um dos melhores amigos que tive nesta minha vida de tropeços. Sinto muito sua falta, mas como diz o caipira do interior de São Paulo, “ele foi antes do combinado”. Coisas da vida ou da morte. Ou do imponderável.

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O PT quer derramar o munguzá de Ciro Gomes

O ex-governador cearense Ciro Gomes sempre apoiou Lula da Silva, bajulando-o pelo menos durante dezesseis anos. Foi adulador contumaz do cacique petista e até seu ministro.

Entretanto, no frigir dos ovos visando as composições eleitorais do primeiro turno das eleições de outubro próximo, o PT o defenestrou, cônscio de que corre perigo tendo-o em sua companhia na corrida eleitoral, até mesmo na condição de aliado.

Ciro Gomes diz que se surpreendeu com a decisão do PT. Lorota. Ele conhece o PT a fundo, mas não quer admitir a ingratidão sofrida e tem esperança que a situação mude.

Trata-se de canibalismo habitual do PT: devora os próprios aliados quando vê seu poder ou expectativa dele ameaçado.

Com o imbróglio da prisão de Lula da Silva, que comanda as negociações políticas de dentro do cárcere, o PT não tem mais tempo para fazer composições e atrair aliados.

Desesperado, o PT mete os pés pelas mãos. Alijar de sua chusma uma liderança do quilate de Ciro Gomes parece mais suicídio político do que estratégia eleitoral. Convenhamos, não é uma boa astúcia.

Lula da Silva – que sabe tudo de negociação política e entende de maracutaias como poucos – orientou o PT para deixar Ciro Gomes de lado, por enquanto, já que, em conjecturas, o cearense não aceitou ser vice na suposta chapa presidencial de Lula que, tudo indica, disputará a eleição sub judice.

O problema é que há uma diferença sutil entre candidatura sub judice e candidato inelegível. Sutil, mas considerável.

Concernentemente ao caso de Lula da Silva, parece razoável entender que ele se situa no campo da inelegibilidade, porque foi condenado por órgão colegiado e isto é o que a lei prevê para o candidato tornar-se inelegível.

A disputa sub judice é possível, natural e comum na Justiça Eleitoral. Não há novidade nisto. Lula se valerá dessa situação para manter-se vivo politicamente. Não há outro caminho.

Todavia, como tudo está ainda muito nebuloso, o previsível é que o PT vai registrar a candidatura de Lula da Silva no último momento permitido pelo calendário eleitoral. O resto virá depois e será discutido juridicamente nos tribunais.

O PT quer derramar o munguzá de Ciro Gomes e queimar sua chance eleitoral nas urnas de outubro.

Se não houver recuo do PT, quando a ficha de Ciro Gomes cair, os televisores não poderão ser ligados na presença de crianças. Ele é especialista em palavrões e nisto se parece adequadamente com seu guru Lula da Silva.

araujo-costa@uol.com.br

Macururé e Raimundo Reis

Raimundo Reis de Oliveira (1930-2002), baiano de Santo Antonio da Glória, antiga Curral dos Bois, hoje simplesmente Glória, sertanejo de espírito irreverente, advogado, político, jornalista, cronista, escritor e radialista. No tempo em que os partidos políticos ainda não eram esse amontoado de excrescência de hoje, foi deputado estadual pelo antigo PSD da Bahia, a maior escola política, filosófica e partidária do período 1946-1964.

Inteligente e espirituoso, apaixonado pelo sertão e por Macururé, que ajudou a tornar município, escreveu muita coisa ao longo de sua existência de intelectual.

Ele e João Carlos Tourinho Dantas, colegas na legislatura de 1959-1963, foram os responsáveis pela aprovação da lei que, em 1962, elevou Macururé à categoria de município, emancipando-o de Glória.

O biógrafo de Raimundo Reis, se um dia existir, terá que estudar muito sobre Macururé. Certamente sua tarefa será facilitada se priorizar, com afinco, o papel que o Partido Social Democrático teve no sertão baiano.

Dentre os muitos textos que escreveu sobre Macururé, no final da década de 1950 Raimundo Reis fez uma crônica bem humorada, depois publicada em seu livro Geografia do Amor, da qual extraio a seguinte parte:

“Era observador do município de Macururé junto à Conferência Internacional da OEA. Em lá chegando, logo no primeiro dia, criou-se com minha presença um caso que quase toma ares de conflito. Ao apresentar meus documentos, o presidente da Comissão de Credenciais levantou a dúvida, afirmando sem base geográfica:

 – Macururé não existe.

Observei, modesto, o seu engano, esclarecendo que lá era o berço natal de Corisco* e Pente Fino, famosos cabras de Lampião. Que o maior tocador de sanfona do Nordeste morava naquela cidade.

Ele, por acaso, não tinha ouvido falar em Divina, a morena mais bonita de todo o sertão, que já tinha virado mais de dez caminhões, pois motoristas apaixonados tinham imprimido velocidade demais aos veículos para chegarem mais cedo aos seus braços de amada?

O presidente era um desinformado. Não sabia nada. Como a maioria dos diplomatas, pertencia a outro mundo.

Quem salvou a situação foi o chanceler Luís Viana Filho que, no momento, entrava no recinto. Deu a sentença final:

 – Macururé existe, sim. Tive lá 50 votos para deputado federal nas últimas eleições, que me foram dados por uns parentes da minha correligionária Ana Oliveira”.

Raimundo Reis escreveu alguns livros, dentre esses Zé do Brejo, lançado por uma editora que tinha o sugestivo nome de Várzea da Ema. Tirei de lá e transcrevo o texto abaixo:

“Antes de mais nada, continuar a viver. Sem levar a sério as coisas e a nós mesmos. Não cultivar ou alimentar ódios. Fazer do amor uma oração de todas as horas.

Desprezar os maus e conviver com os bons. Respeitar a eloquência da mediocridade e exaltar o silêncio dos sábios. Achar graça da empáfia dos poderosos, esperando o dia de confortá-los nos instantes da queda próxima. Buscar a beleza em todas as suas manifestações.

Trabalhar sem fanatismo. Usar o dinheiro antes que ele nos use. Ajudar aos outros sem esperar gratidão. Ter em casa um cachorro, uma biblioteca e, pelo menos, duas garrafas de uísque.

Depender o mínimo dos outros. Saber uma oração ou uma música. Ser simples. Para ser feliz, basta um pouco de filosofia, não a dos livros, mas a que descobrimos num por de sol ou num adeus sem volta”.

E terminou o texto, assim: “Descobri que não sou. E não sendo, o resto tem pouco ou nenhuma valia”.

Raimundo Reis era encantador. Um dia me chamou de “ínclito filho de Patamuté”. Senti-me lisonjeado. Sou até hoje.

Faleceu em dia de festa, 24 de dezembro de 2002.

Raimundo foi festivo até na morte.

Noutros tempos, frequentei muito Macururé e tomava cachaça Aquino no bar de Silvino ouvindo músicas de Nelson Gonçalves. Lembro muito os lugares por onde andei.

A memória, embora esburacada pela passagem dos anos, trouxe-me hoje Macururé e essa crônica de Raimundo Reis no aniversário daquele simpático município. Coisas da saudade.

* Salvo engano, a história registra que o cangaceiro Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco) nasceu em Água Branca, Alagoas, em 1907. Raimundo Reis, profundo conhecedor do cangaço, sabia disto, mas enfeitou a crônica para torná-la mais interessante.

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O Juiz eleitoral

Eleições na Bahia, outubro de 1962.

O general Juracy Magalhães era governador e exercia poderosa influência sobre líderes municipais. Famoso tenente na década de 1930, integrante do movimento tenentista que derrubou o presidente Washington Luiz, habituado a mandar nos quartéis, Juracy também passou a mandar na Bahia.

Era anticomunista roxo.

Na marcha das apurações em Santo Antonio de Jesus, recôncavo baiano, as urnas asseguravam expressiva votação ao jornalista Sebastião Nery, candidato a deputado estadual pelo Movimento Trabalhista Renovador (MTR), socialista convicto e baiano de Jaguaquara.

O juiz eleitoral, subserviente ao governador, na hora de preencher o mapa da apuração, espantou-se com o resultado do candidato e perguntou ao membro da junta apuradora:

– Quantos votos para Sebastião Nery?

– 160, Doutor.

– Corta o zero. Bota no mapa só 16. O que o governador vai pensar de mim se este comunista ganhar em minha comarca.

E sumiu com 144 votos de Sebastião Nery.

Como se vê, havia juízes e juízes. Ainda hoje.

araujo-costa@uol.com.br

Fonte: Sebastião Nery

Chorrochó, tempo de contar: Maria Ita de Menezes.

“Há tempo de amar e tempo de amar o que se amou” (Marques Rebelo, 1907-1973).

Começo pela descendência: Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, Jaílson José Pacheco de Menezes, Ita Luciana Menezes de Menezes e James George Cordeiro de Menezes.

A descendência é a continuidade da vida, o bálsamo para perfumar o caminho, às vezes árduo, às vezes espinhoso e a doçura que facilita o enfrentamento dos tropeços ao longo do caminhar.

Assim é o escrever da vida. Assim são as surpresas e assim é o imponderável da construção familiar.

Essa descendência de Maria Ita de Menezes e de José Jazon de Menezes está aí para contar a história mais à frente, anos adiante, porque nos dias de hoje contamos nós, os mais antigos, os que chegamos primeiro no tecer da vida. E certamente contarão competentemente, eficientemente.

Incluo a descendência neste andar, porque são os filhos que, em princípio, sustentarão a robustez das raízes de Ita e Jazon. São raízes fortes, seguras, firmes. Os alicerces foram bem estruturados, a construção moral segura e perene.

Meu primeiro contato com Maria Ita de Menezes deu-se em consequência de minha matrícula no então Colégio Normal São José, de Chorrochó.

Estávamos lá nos idos de 1971. Ela era professora de Geografia. Cabe um salvo engano aqui, por conta de um detalhe: em razão da ausência de estrutura do colégio, alguns professores ministravam mais de uma disciplina, o que de certa forma aproximava alunos e professores.

Contraditoriamente, a precariedade das condições de ensino à época e, neste caso, foi saudável para agigantar a qualidade dos mestres que tivemos no Colégio São José. Maria Ita de Menezes incluiu-se dignamente na história da educação de Chorrochó.

A instituição familiar representada pelos Menezes de Chorrochó é, até hoje, uma universidade de bons exemplos e de contribuição para o engrandecimento do lugar.

Convivi com essa família, numa quadra do tempo. Daí e dessa convivência, guardaram-se a amizade e algumas lembranças que me alegram até hoje, nos momentos de solidão. São muitos e frequentes esses momentos, porque a passagem do tempo nos fragiliza e a saudade faz constantes e inesperadas visitas.

Maria Ita de Menezes vem de uma família exemplar de Chorrochó. Exemplar, em razão do caráter e em razão da história de vida que ostenta, na sociedade local: o pai, Antonio Pacheco de Menezes; a mãe, Maria Argentina de Menezes; e os irmãos Maria de Lourdes Menezes Araujo, Maria Nicanor de Menezes Veras, Maria Joselita de Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, Walmir Prudente de Menezes, Antonio Pacheco de Menezes Filho, Maria Agripina de Menezes, José Osório de Menezes e Maria Eugênica de Menezes.

Penitencio-me se, por conta de minha esburacada memória, omiti ou grafei alguns nomes com incorreção, tanto dos filhos quanto dos pais e irmãos de Maria Ita de Menezes.

Contudo, o que importa aqui, neste tempo de contar, é o registro que faço sobre a importância que Maria Ita de Menezes representa na vida de grande parte da sociedade local, enquanto professora e, até em certos momentos, orientadora paciente e atenciosa.

Ao caminhar, o cronista quase sempre se perde e se acha. No seguir da vida e na passagem do tempo aparecem-lhe as lembranças, a saudade, as marcas dos tropeços, a reverência às amizades que lhe são caras.  Surge “o tempo de amar o que se amou”. É difícil não continuar amando Chorrochó daquele tempo e de hoje.

Quando jovem precisamos de orientação, de conselhos, de amparo. A opinião dos mais experientes nos dá o prumo, o rumo, o norte. Eu precisei muito disto.

Em 31/01/2013 escrevi uma crônica sobre José Jazon de Menezes sob o título A lâmina do tempo. Lá eu dizia que Jazon constituiu família nobre em Chorrochó o que, de resto, todos sabem..

Hoje acrescento tão-somente que esta nobreza familiar tem um significado inegável para a história local: a robusta participação de Maria Ita de Menezes, educadora e ícone da sociedade chorrochoense.

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