
Hoje quero me referir a um sujeito decentíssimo, culto e politicamente inteligente: Salvador Lopes Gonsalves, assim como eu, filho do altaneiro município de Curaçá.
Este senhor a que me refiro foi, numa quadra do tempo, eficiente prefeito de Curaçá, município baiano debruçado à margem direita do São Francisco.
Salvador Lopes Gonsalves governou Curaçá num período inquestionavelmente difícil: o município saía de uma quadra de administrações conservadoras, porque assim ditavam o momento e as circunstâncias da época.
Salvador tinha consciência de que a mudança pressupunha ruptura de valores já sedimentados na estrutura municipal, nem sempre fáceis de serem alterados.
Ele se definia como oposição às práticas políticas da ocasião.
A esquerda de Salvador é outra, sempre foi outra, qual seja, a verdadeira esquerda: ideologicamente fincada em princípios defensáveis e possíveis de praticá-los a qualquer tempo.
Salvador é sensato, inteligente, enxerga longe, antever horizontes. Difere da esquerda tresloucada, que não sabe exatamente o que quer e vive embevecida em picuinhas do poder.
O poder, para Salvador, é consequência da luta democrática. Era-o naquela quadra do tempo. Ele deve pensar assim até os dias de agora.
Em Curaçá, Salvador representava a mudança, a necessidade de mudança, a razão da mudança.
Salvador mudou Curaçá?
Não sei. Mas chacoalhou a forma de fazer política no município, atapetou o caminho, indicou direções e acendeu a luz do horizonte político, iluminando o caminho de muitos que se seguiram.
Salvador é politicamente culto. Também é humilde demais. Entende de seu povo, de suas origens, entende de Brasil.
Aliás, dentre as muitas observações de meus leitores, faz muito tempo um curaçaense me corrigiu. Dizia ele que Gonçalves se escreve com ç e não com s.
Detalhe de somenos, mas concordei com o atento e exigente leitor. Entrementes, relativamente ao Gonsalves de Salvador, continuo escrevendo com s.
Hoje, se me perguntarem por que, insisto que não sei. Presumo que em seu registro de nascimento o tabelião tenha grafado assim. É o bastante. Talvez coisas de Luizinho Lopes, o conspícuo pai de Salvador.
Salvador é tão importante que um ç ou um s não faz a menor diferença em seu nome, em sua vida e, por conseguinte, na história de Curaçá.
Importantes são as lições de Luizinho que Salvador aprendeu. Quanto a Luizinho, não importa aqui o dizer de sua vida. Só os sábios explicam o seu saber. E eu não sou sábio, não sei explicar.
Como dizem os mineiros, Salvador Lopes Gonsalves está onde sempre esteve: à espera de um novo tempo. E o novo tempo para o sábio e silencioso Salvador é a luta em defesa do município de Curaçá, com mandato ou sem mandato.
Não importam os partidos políticos, os conchavos e, muito menos, as alianças partidárias, a costura das estratégias.
Que Salvador encontre sempre essa maneira de viajar em direção à continuidade da vida.
Esta carta que encima este artigo – melhor dizendo, estes rabiscos, registra um período da história de Curaçá.
Considerando, ademais, que o documento faz parte da história de Curaçá e nada há nele de confidencial, faço-o público sem a permissão do missivista Salvador Lopes Gonsalves de quem espero a compreensão.
araujo-costa@uol.com.br