Em tempos imemoriais, líderes romanos idealizaram uma política duradoura que os mantinha no poder e funcionava assim ou mais ou menos assim, segundo a história: para acalmar a plebe insatisfeita e a deixasse subserviente e sem reclamar diante dos poderosos, esses líderes promoviam grandes banquetes e festas esportivas e artísticas, ao tempo em que distribuíam pão à população.
Assim, a plebe se divertia e esquecia os problemas e as dificuldades por que passava.
Essa estratégia ficou conhecida como a “política do pão e circo”.
Passados alguns séculos, parece que nada mudou.
Na Bahia, o município de Teolândia, no baixo-sul do estado, região de Ilhéus, com população estimada em 20 mil habitantes, está em estado de situação de emergência desde dezembro de 2021, decretado em razão dos temporais que causaram grandes prejuízos à população.
Embora assim, a prefeita Maria Baitinga (Progressistas) contratou diversos shows a um custo de aproximados R$ 2 milhões, que deveriam ser pagos pela Prefeitura, quase o valor que ela recebeu do governo federal a título de ajuda destinada à reconstrução do município devastado pelas chuvas: R$ 2,3 milhões.
Dentre os cantores contratados pela prefeita festeira e “sem noção”, estavam o mineiro Gusttavo Lima (R$ 704 mil) e o baiano Adelmário Coelho (R$ 120 mil), os mais famosos.
Um parêntese: aqui para nós, o forrozeiro Adelmário Coelho é tão bom artista quanto deve ser Gusttavo Lima, razão por que, mesmo considerando a estrutura de palco, músicos, pessoal de apoio e logística de um e de outro, chega a ser difícil entender porque o cantor mineiro cobra cachê de, pelo menos, seis vezes mais do que o artista baiano.
Os shows em Teolândia que deveriam ser realizados entre 04 e 13 do corrente mês de junho foram cancelados, a pedido do Ministério Público da Bahia e decisão do Superior Tribunal de Justiça.
O que diz o Ministério Público da Bahia:
“Não é possível que o mesmo município, que informou necessitar de ajuda e recursos para salvaguardar a sua população de catástrofe natural, mesmo vivenciando um estado de calamidade televisionado para o Brasil inteiro, anuncie, em poucos meses, a contratação de artistas com cachês incompatíveis com as dimensões, arrecadações, necessidades de primeira monta e saúde financeira do município” (O Tempo, 05/06/2022).
O que diz a prefeita Rosa Baitinga, do PP:
“O povo pediu e o governo municipal vem atendendo aos anseios da população para atrair investimentos e auxiliar a população mais carente, pois a festa não é uma despesa pública, mas um investimento no bem estar, na cultura e como gerador de riquezas” (G1 Bahia, 06/06/2022).
Então tá.
Entretanto, esse disparate não acontece só em Teolândia, mas em dezenas de municípios.
Em Conceição do Mato Dentro, pequeno município de Minas Gerais, outro show do cantor Gusttavo Lima também foi cancelado, tendo em vista o volume de dinheiro que seria pago ao artista (R$ 1,2 milhão), incompatível com a realidade do município pobre e de aproximadamente 18 mil habitantes, segundo as autoridades locais.
Mas a discussão que surgiu com esses mega-shows pagos por prefeituras paupérrimas é outra: o dinheiro público estaria sendo desviado através de superfaturamento e, mais do que isto, com o consequente pagamento de propina aos envolvidos nas contratações.
Como no Império Romano, nossos políticos dão pão e circo à população, que se diverte doidamente, enquanto passa fome.
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