Curaçá e a eleição de Murilo Bonfim

Prefeito eleito Murilo Bonfim/Reprodução facebook

“Eu venho de campos, subúrbios e vilas, sonhando e cantando, chorando nas filas, seguindo a corrente sem participar.” (Dom e Ravel)

As urnas de Curaçá elegeram prefeito Murilo Bonfim (PT) para o próximo quadriênio, com expressivos 54,56% dos votos.

Adriano Araújo (Pode), candidato do prefeito, alcançou 45,44%. A diferença entre ambos chegou a 2.145 votos, menor que a abstenção de 2.781 eleitores que deixaram de votar e suficientes para ajudarem o candidato do prefeito a, pelo menos, diminuir a diferença.   

Os votos nulos e brancos somaram 775.  

Calejado por tropeços em campanhas eleitorais e acostumado com análises políticas, entendo que abstenção, assim como votos brancos e nulos, exceto por questões formais, retratam a descrença dos eleitores em seus líderes.

Considerando o tom da campanha salvacionista do petista Murilo Bonfim, é razoável entender que a maioria dos eleitores entregou ao prefeito eleito a esperança de horizontes mais alvissareiros para Curaçá nos próximos quatro anos e, quiçá, no período subsequente, se o prefeito souber corresponder às expectativas dos eleitores manifestadas nas urnas.

Como se vê, o prefeito Pedro Oliveira  não conseguiu colocar o município em sintonia com os anseios da população ou não teve condições de robustecer seus argumentos no sentido de demonstrar o que fez nesses aproximados oito anos.

O contexto autoriza a presumir que, sendo Adriano Araújo vice do atual prefeito e de quem foi secretário, a responsabilidade pelos erros e acertos das gestões das quais fez – e faz parte – é solidária e não somente do prefeito. 

Parafraseando a dupla Dom e Ravel nos tempos da ditadura, “você também é responsável”, de tal modo que os feitos, quaisquer que sejam, devem ser creditados ao conjunto da administração.

Talvez aí esteja a dificuldade do candidato Adriano Araújo em erigir-se capaz de mudar Curaçá, recado que a população absorveu suficientemente para tirar-lhe a oportunidade de vitória.  

O prefeito eleito Murilo Bonfim deve sustentar uma razoável mudança de rumos em Curaçá, de modo que suas espalhafatosas promessas de campanha não sejam arranhadas pelo descaso, de resto, comum na atual administração.

A impressão que se tem é que Curaçá amargou uma quadra do tempo  desconforme os anseios da população, fato que arrancou a expectativa de continuidade do atual grupo político.

Qualquer sociedade que perde a esperança em seus líderes faz emergir inequívoco desejo de mudança, com ou sem percalços pelo caminho, mesmo que a mudança enverede pela estrada da decepção.

Os recursos carreados para Curaçá são generosos, segundo os registros oficiais. Talvez tenha faltado ao alcaide capacidade de priorizar demandas e não, propriamente, escassez de recursos.

Quiçá o prefeito adotou um estilo de governar acomodado e capenga que acabou deixando a maioria da população insatisfeita.

Viam-se reiteradas reclamações relativamente às estradas vicinais abandonadas, transporte escolar deficiente, ambulâncias danificadas e, sobretudo, descuido com reivindicações prementes e elementares de munícipes que, em certas situações, precisam da intervenção e ajuda da Prefeitura.        

Como se vê, Curaçá está aquém no que tange às exigências da população e naquilo que se espera da atuação do Executivo com vistas aos anseios do povo. E isto não é de agora.

Ao prefeito Murilo Bonfim não cabe acumular equívocos em sua administração, que todos desejamos profícua e exitosa.

O histórico de apatia que Curaçá experimentou nos últimos anos não pode persistir.

O prefeito deve aproximar-se de todas os grupos sociais do município e saber conviver com os antagonismos.

Mais do que isto: governar com sabedoria e ficar atento às necessidades da população.

Um parêntese e uma lembrança:

Há algum tempo um caatingueiro de Patamuté comentou com este escrevinhador que a última vez que a Prefeitura mandou uma máquina limpar sua minúscula barragem foi no governo do prefeito Carlos Luiz Brandão Leite (Carlinhos Brandão), que lhe deu muita atenção por intermédio de José Valberto Matos Leite.  

Não procurei saber se à época José Valberto era ou não vereador, nem isto vem ao caso agora. Basta a atuação em favor do munícipe.

Portanto, faz muito tempo. Aquele sertanejo da caatinga, segundo ele,  não conseguia ter acesso ao prefeito ou ao secretário da área que cuidava do assunto, se é que à época havia secretário da área que cuidava do assunto ou outra pessoa que se lhe dignasse dar atenção.

Espirituoso, o sertanejo acrescentou:

– Toda vez que vou à Prefeitura de Curaçá procurar o prefeito ele nunca está e um funcionário informa que o “prefeito foi a um enterro”. Vou deixar de ir. Se eu continuar indo lá e o prefeito continuar indo “a um enterro”, ele vai enterrar muita gente e eu não quero isto.

Comentou aquele munícipe, ainda. Ao reivindicar água através de um caminhão pipa, o responsável pelo setor o aconselhou a consumir água da chuva colhida do telhado, o que de todo não estava errado, se a água não fosse para o consumo humano.

Entretanto, o sertanejo de Patamuté argumentou: não era ocasião de chuva e, se fosse, não estaria pedindo ajuda à Prefeitura; e a água do telhado continha impurezas tais que a tornariam imprópria para o consumo humano.

Mas o ilustre senhor, que entendia tudo de água, de Prefeitura e certamente de seu emprego, ponderou que também morou na zona rural e consumiu água semelhante.

Não sei se na última eleição de 06 de outubro esse caatingueiro votou, se votou, no candidato do prefeito ou em seu opositor.

Mas, convenhamos, com uma assessoria assim e esse nível assustador de atendimento ao munícipe, fica difícil qualquer prefeito eleger seu sucessor.

Contudo, a alternância de poder é democrática, saudável e necessária.

araujo-costa@uol.com.br

Deixe um comentário