As saudáveis peripécias de Raimundo Reis

Raimundo Reis em foto de 1986/Arquivo pessoal

“Depois de certa idade não devemos nos importar muito com o futuro. O que deve ser louvado é o passado.” (Raimundo Reis, 1930-2002).

Raimundo Reis de Oliveira, baiano de Santo Antonio da Glória, antigo Curral dos Bois, sertanejo de espírito irreverente, advogado, político, jornalista, cronista, escritor e radialista, era filho de Filomena Oliveira Reis, sobrinho de Pedro Reis e neto de Petronilo de Alcântara Reis, o lendário “coronel” Petro.

No tempo em que os partidos políticos ainda não eram esse amontoado de excrescência de agora, foi deputado estadual pelo antigo Partido Social Democrático.

O PSD da Bahia foi a maior escola política, filosófica e partidária do período 1946-1964.

Inteligente, boêmio e espirituoso, apaixonado pelo sertão e por Macururé, que ajudou a tornar município, escreveu muita coisa ao longo de sua existência de intelectual.

Raimundo Reis contava que conheceu Macururé, ainda criança, numa viagem que fez até lá em companhia do “coronel” Petro e do tenente José Izidro, seu padrinho. Disse que enfrentou as areias do Brejo do Burgo e do Salgado do Melão e se apaixonou por Macururé que, anos mais tarde, se tornou seu reduto eleitoral. Falava de Hemetério Gomes, Vadinho e Silvino, respeitáveis lideranças de Macururé.

Raimundo Reis escreveu alguns livros, dentre esses Geografia do Amor, Malhada do Sal, A mulher de Boquim e Zé do Brejo, este último lançado por uma editora que tinha o sugestivo nome de Várzea da Ema.

Aliás, o povoado de Várzea da Ema, município de Chorrochó, fez parte dos domínios do “coronel” Petro, assim como as Fazendas Paus Pretos e Perdidos, referências históricas daquela quadra do tempo.

Ainda em Glória, a família o mandou estudar em Sergipe.

Na hora da despedida, o pai lhe disse, com ar professoral de legítimo sertanejo defensor de sua honra:

– Vá. Cuidado com a vida. Seja homem!

Raimundo Reis foi e evoluiu. Estudou o primário em Aracaju e o secundário no Colégio Santanópolis, em Feira de Santana. Cursou Direito, foi jornalista, deputado estadual pelo antigo PSD da Bahia (1959-1963), radialista da Rádio Sociedade da Bahia, cronista, escritor e boêmio incorrigível.

Meu contato com Raimundo Reis remonta ao tempo da Revista Legislação e Jurisprudência Fiscal (LJF), de Salvador, década de 1980. Lá também escrevia o jurista, intelectual e político Edvaldo Brito, um dos mais respeitáveis homens públicos da Bahia que em 2026 é candidato a suplente do senador petista Jaques Wagner.

Inteligente e espirituoso, apaixonado pelo sertão e por Macururé, que ajudou a tornar município, Raimundo escreveu muita coisa ao longo de sua existência de intelectual.

Raimundo Reis e João Carlos Tourinho Dantas, colegas na legislatura de 1959-1963, foram os responsáveis pela aprovação da lei que, em 1962, elevou Macururé à categoria de município, emancipando-o de Glória.

Um dia, já experimentado pelos tropeços do dia a dia e lembrando as palavras do pai, Raimundo Reis sentenciou, irônico:    

– Cuidar da vida até que tem sido fácil. O difícil é ser homem.

Raimundo Reis era encantador. Um dia, em maio de 1987, me chamou de “ínclito filho de Patamuté”. Senti-me lisonjeado. Sou até hoje.

Nascido a 04/03/1930, faleceu em dia de festa, 24 de dezembro de 2002.

Raimundo foi festivo até na morte.

araujo-costa@uol.com.br

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