Patamuté: memória e lembrança de Afonso Menezes.

É seguramente certo que o caminho mais curto para alcançar a dignidade e a modéstia é a humildade.

Os contornos das dificuldades e as curvas do caminho apontam o equilíbrio entre a decência e a construção do caráter.

Nesse diapasão, José Afonso era assim: humilde, modesto, digno, decente, ético, caráter irrepreensível.

Afonso Menezes/Arquivo da família/sem data

José Afonso de Souza Menezes nasceu em 26.03.1946 e faleceu em 13.11.2017.

Engenheiro agrônomo graduado pela pioneira Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco (FAMESF), construiu seu mundo estribado na dignidade e na decência.

Em Patamuté e Chorrochó estão as raízes de José Afonso. Seu pai Manoel Pires de Menezes (Nozinho) e sua mãe Maria José de Souza Menezes (Zarica) construíram os pilares de uma família exemplar que enriqueceu a história do lugar.

Zarica nasceu a 03/10/1924 e faleceu em dezembro de 2018. Era filha de Antonia Mendes de Souza e Ernesto Ferreira de Souza.

Zarica e Nozinho constituíram família alegre e honrada: José Afonso de Souza Menezes, Maria Auxiliadora de Menezes Kawabe, Manoel Ernesto de Souza Menezes, Antonio Carlos de Souza Menezes, Maria Socorro Menezes Santana, Jorge Luiz de Souza Menezes e Maria Agripina de Menezes Fernandes.

Nozinho nasceu em 16.07.1920 e faleceu a 20.02.1999. Era filho de Argentina Pacheco e José Pires de Carvalho.

Membro da tradicional família Menezes, de Chorrochó, Nozinho fez política no município de Curaçá e deixou para José Afonso seu legado de dedicação à causa dos mais necessitados, que se havia dedicado com zelo e seriedade.

José Afonso era educado, atencioso e, sobretudo, correto, essencialmente correto.

A Câmara Municipal de Curaçá se enriqueceu com a passagem marcante de José Afonso, político de caráter irrepreensível, sempre preocupado com a causa dos mais humildes.

Deixou família decente e bem estruturada: a mulher e professora Norma Suely Brandão Menezes e os filhos José Carlos Brandão Menezes, Anna Karla Brandão Menezes e Anna Maiara Brandão Menezes.

Encontrei-o pela última vez em Chorrochó. Sempre altivo, conversa interessante e ampla visão da realidade política da época, admirável capacidade de argumentar.  

Anos mais tarde, um telefonema de Afonso me alcançou em São Bernardo do Campo e ele me dizia que precisava fazer alguns procedimentos num hospital de São Paulo. Não sei se chegou a fazer.   

Cronista vive se perdendo e se achando. Assim, neste texto malfeito e desconchavado, lembro que Jorge, irmão de Afonso, foi meu amigo de tertúlias e boemias.

Maria Auxiliadora, também irmã de Afonso, foi minha professora de memoráveis lembranças. Seus ensinamentos somaram-se ao meu viver e os carrego até hoje. Entretanto, a admiração se estende a toda família de Zarica e Nozinho. Ambos serviam de exemplo a todos nós que vivíamos naquela quadra do tempo.

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Curaçá e o papel da SCAB

Vista parcial da Sociedade Curaçaense Artística e Beneficente (SCAB). Foto sem data. Crédito: Luciano Lugori

A Sociedade Curaçaense Artística e Beneficente (SCAB), que ainda mantém sua história imponente e valiosa, se formou como um clube da sociedade local mais à moda e aos modos da elite interiorana do Nordeste.

Em minha juventude – já vai longe no tempo – chegava a ser difícil frequentá-la se não envergasse credenciais abonadas por pessoas integrantes de famílias fincadas em raízes tradicionais locais.

Houve um tempo em que era preciso recorrer a Adair Brandão Aquino e Maria Valdelice Aquino, elegantes e distintas senhoras da sociedade curaçaense, que tinham segura participação e influência sobre a administração do clube, todo vez que se reivindicava o local para a realização de quaisquer eventos.

Ainda assim, nem sempre era possível o intento.

Entretanto, anos mais à frente, a SCAB abrigou, com nobreza e elegância, seminários e movimentos da juventude da época, capitaneados por irrequietos jovens curaçaenses, a exemplo de Roberval Dias Torres, José Carlos (Pinduka), Dodó e tantos outros.

A SCAB entendeu aquele momento efervescente e acolheu a rebeldia própria da juventude, atributo da mocidade utópica e sonhadora, que balançava as estruturas do pensar curaçaense.

Esses e outros tantos jovens daquela Curaçá da primeira metade da década de 1980 acabaram construindo um movimento cultural enriquecedor que desembocou em ideias louváveis e grandiosas como a CURAÇARTE, voltada para a produção artística e intelectual, desejo de revitalização do Teatro Raul Coelho, primeira semana cultural, et cetera.

Surgia, com ênfase, a “geração mimeógrafo” que já vinha se formando e produziu intelectuais a exemplo de Josemar Martins (Pinzoh), nascido em meio aos cactos de São Bento e espécie de referência quando se trata de defesa da cultura regional sanfranciscana.

Não é exagero, nem demais pontuar, que a semente desse período rico de ideais em Curaçá atapetou o caminho para o surgimento de iniciativas como a banda Bichos Escrotos e, mais recentemente, o Acervo Curaçaense, que abriga louvável e reconhecida desenvoltura com vistas à sedimentação da história de Curaçá.

Na esteira dessa forma de tentar compreender a alvorada daquela quadra do tempo, Curaçá produziu uma geração de intelectuais que engrandece a história do município.   

Os exemplos são diversos e conhecidos, sem, por óbvio, desprezar os mais antigos, sempre de meritórias referências.

Livros como História da Imprensa de Curaçá e Barro Vermelho-Memória e Espaço, do jornalista Maurízio Bim e Enquanto Enlouqueço, do também jornalista Luciano Lugori fazem parte do resultado desse novo pensar da cultura de Curaçá.

De todo modo, a SCAB contribuiu com as artes e o dizer de Curaçá e representa, sem dúvida, a perene história do município. 

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Bizarro, estrambólico: a praça é do juiz

Praça cercada por magistrado/Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

Um magistrado de São Paulo mandou cercar com alambrado uma praça pública na região de Interlagos, zona sul da capital, alegando que a praça é dele, comprou, pagou e não se fala mais nisto.

Não é piada. Quem quiser, leia a grande imprensa que publicou a matéria exaustivamente e até, se puder, consulte a ação judicial que, segundo o juiz, lhe assegurou a propriedade da praça.

Praça Ramiro Cabral da Silva/Reprodução Google

A Prefeitura de São Paulo contesta. Diz que a praça é pública.

“Como que alguém vende uma praça? Eu moro aqui há 44 anos e sempre foi uma praça”, perguntou um morador (CBN/SP, 23/04/2024).

Pior é achar um Juiz de Direito que compre.

Mais: Sua Excelência colocou a praça à venda por R$ 1,3 milhão (Folha de S.Paulo, 22/04/2024).

Praça cercada por magistrado/Crédito: Gabriela Rangel/CBN

Não devemos estranhar.

A medida, segundo a imprensa, partiu de um juiz aposentado, o que não lhe retira o título de magistrado.

E membro do nosso justo, justíssimo Poder Judiciário.

Mas o que se esperar de um país em que ministros do Supremo Tribunal Federal – a instância máxima do Poder Judiciário – se acham donos do Brasil e, em certos casos, espezinham as leis nacionais?

Ditadura de toga é mais assustadora do que ditadura de fuzis.

Rezemos, sempre. Só nos resta rezar.

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Aniversário – 14/04/2024 – e agradecimento

Agradeço as mensagens recebidas em 14.04.2024, por ocasião do meu aniversário e peço desculpas pela omissão de alguns nomes que não cito aqui.

Por exemplo, os grupos de meu querido distrito de Patamuté, dos quais participo, deletaram as mensagens.

Agradeço a todos, mesmo assim.

Antes eu havia visualizado as mensagens, mas depois elas desapareceram dos grupos de Patamuté. Isto é bastante para que todos entendam minha descortesia com aqueles que me parabenizaram, mas aqui não são citados.

Portanto, meus agradecimentos a:

Estela Paixão, Alex Reis Nascimento, Romildo Ferreira, Marinalva Rodrigues, Ahmad Wehbe, Gilberto Bahia, Antonio Wilson de Menezes, Ita Luciana de Oliveira, Maurízio Bim, Ângela Silva, Adalice de Paula, Rafael da Silva, Eufrásia Oliveira, Eduardo Morelli, Lucineide de Oliveira Dias Mota, Madalena Paixão Dias, João Evangelista dos Santos Souza, Valter Alves de Carvalho, Nenê Ricardo, Edilson Oliveira Maciel, Lenisse Santana, Maria da Graça Gracinha, Margareth Gomes Pires, Eliel Pelúcio, Liliane Melchiol, Carol Pelúcio, Maressa, Edmundo Rafael de Araujo Cavalcanti, Regina Oliveira, Jamila Bruni, Fátima Gonçalves Almeida, Regina Oliveira, Jamila Bruni, Fátima Gonçalves Almeida, Leandro Ribeiro, Edilea Chaim, Edmundo Araújo, Fátima Barbosa Lopes, Betinho Menezes, Virgílio Ribeiro, Maria do Socorro Menezes Ribeiro, Júlia Maria Livino dos Santos, Bebeto Mota, Guilherme Paixão da Silva, Edson Lago, Josué Moraes, Ezio Luiz, Eurides Araújo, Euza Dias de Araújo, Euzivânia Vilela, Rogério Souza, Jorge Jazon Menezes, Maria Goretti Gomes, Angelita Viana, Abdu Jarouche, Theodomiro Mendes, Lydia Veras, Ceiça Reis, Simone Gomes Reis, Adalberto Machado Oliva, Maria Teresa, Mirian Tereza, Reginaldo Vieira, Idelfonso Silva, Vanízia Mendes, Ana Maria, Maria Léa Santos Souza, Fatinha Araújo, Manuh Souza, Maria P.Menezes, Leonildo Oliveira, Creuza Miranda, Rosângela Brandão, Nadilma Alcântara, Abmael S.Silva, Regiana Souza Fonseca, Adrys Lopes, Auxiliadora Pires, Marcelo Vieira, Maria Paixão, Zelinho Sena, Frederico Rodrigues Durando, Erivaldo Gomes Souza, Dc Damásio Soares, Veranice Feliciano, Edinete Paixão Souza, Vilani Rêgo, Sandro Gonçalves de Toledo, Lusineide Miranda, Adonis MDantas, Acioli Silva, Carmita Rios Menezes, Cleide Ferreira, Cleide Oliveira Rodrigues, Valdir Rodrigues, Sheila Giusti, Neusa Silva Buglia, Maria Odete Marques, Márcia Almeida Gonçalves, Silvanira Pereira de Oliveria, Maurício Gonçalves, Dircis de Souza Bom, Tusa Granato, Dirce de Lima, Edmilson Ribeiro, Dorinha Souza, Humberto Antonio, Eugênio Pachelli Evangelista Xavier, Rogéria Alves, Rosana Reis, Raimundo Lourenço, Clarice Alves Reis, Camila Leal, Laudney Mioli, Maria Auxiliadora Nery, Maria Inez Alves, Getúlio Barbosa, Jurandy Henrique de Souza, Francineide Santos, André Rizzo, Sérgio Luiz Souza Ferreira, Anílton Barros, Jacson Prado, Dasdores Ribeiro, Maria Socorro Santos, Anselmo Vital, Antonio Marcelo Almeida Lima, Libânia Torres, Jefferson Botias, Marinalva Santa Rosa, Jivanda Mendes, Lígia Brandão, Reginaldo Rodrigues da Silva, Josemário Brandão, Necy Gomes de Sá, Thereza Menezes, Edite Benatti, José Martins, Rosana Santos, Odilon Luiz de Oliveira Júnior, Diógenes Félix de Oliveria, Jucelma da Cruz Santos, Domingas Pereira, Otávio Virgínio, Oneide Santos, Bruno Marcel Portilho Lopes, Maria da Silva Rego.     

Excluo, por motivos óbvios, as pessoas de minha família.  

araujo-costa@uol.com.br

Em Juazeiro, uma estátua polêmica

“Não são de heróis as estátuas que nos habituamos a reverenciar em praça pública” (Italino Peruffo, 1925-1992) 

Em São Paulo, há uma estátua de Borba Gato (1649-1718), bandeirante que a história diz escravocrata, escravizador. A estátua começou a ser erguida em 1957 e inaugurada na década de 1960 no bairro de Santo Amaro.

Estátua de Borba Gato/Site São Paulo Antiga

Em 2021, membros da esquerda diurética fizeram um movimento no sentido de remover a estátua, mas o bom senso a manteve, por enquanto. Está lá, imponente e histórica. Pior: o movimento esquerdista vandalizou-a, incendiando-a.

Argumento dos desocupados: Borba Gato defendia a escravidão. Todavia, a verdade histórica se sustenta por si só. A derrubada da estátua não vai apagar a história do Brasil, tampouco ofuscar a memória da escravidão ignóbil.

Estátua de Borba Gato/Reprodução Uol

Uma imagem deprimente, condenável, imbecil, estapafúrdia.

Mais do que isto: um desrespeito à história, mormente de São Paulo.

Em Juazeiro, belíssimo município à margem do São Francisco, nasceu o jogador Daniel Alves, que ostenta dezenas de títulos conquistados na história do futebol.

Há uma estátua na cidade em sua homenagem.

Agora, o Ministério Público da Bahia determinou que a Prefeitura explique, “em um prazo de cinco dias, como se deu a autorização que permitiu a colocação de uma estátua do ex-jogador de futebol, Daniel Alves, no centro da cidade” (Folha de S.Paulo, 12/04/2024).

Salvo engano, a ideia partiu de uma ativista, que quer a remoção da estátua.

O Ministério Público questiona se o monumento “trata-se de um bem público” de Juazeiro. 

A Prefeitura de Juazeiro inaugurou a estátua de Daniel Alves em dezembro de 2020. Há notícia de que já foi alvo de depredações, tendo em vista  insatisfação de parte da população juazeirense, em razão das notícias sobre o envolvimento do atleta em suposto crime hediondo.

Crime dessa natureza deve ser rechaçado, repelido, independentemente de quem o pratica. Cabe à sociedade como um todo – e a cada um de nós, isoladamente – condenar qualquer tendência criminosa que desemboque em barbaridade como essa.

Mas como se vê, uma mancha estritamente pessoal adstrita a Daniel Alves que não contamina a gloriosa sociedade juazeirense.

Não conheço Daniel Alves. Não me recordo de tê-lo visto atuando em campo, mas isto não tem a menor importância, “não inflói nem contribói”, como se dizia antigamente nas rodas estudantis.

O que importa aqui – e é fato inegável – é que ele defendeu o futebol brasileiro, sim.

Entretanto, parece razoável entender que há um exagero nisto tudo. Há alguma coisa fora do lugar e não é a estátua.

A estátua – custeada ou não pelo poder público – foi erguida em homenagem ao profissional, ao jogador, que não deve ser confundido, stricto sensu, com o cidadão Daniel Alves, condenado por estupro, pela Justiça espanhola e que, salvo engano, ainda cabe apreciação das instâncias superiores de lá.

Uma coisa é o atleta, que sustentou o nome do esporte do Brasil noutros países; outra coisa é, completamente diferente, o delinquente que transgrediu as leis penais e arranhou a conduta social.

A sociedade não deve aceitá-lo em sua convivência, por óbvio, enquanto não pagar a pena. É a praxe, é o razoável, é a norma jurídica. Mas daí a sociedade ostentar o direito de mandar derrubar a estátua em sua homenagem, vai uma grande distância.

Se construída com dinheiro público, maior a razão para não derrubá-la. Recurso do contribuinte não pode ser espezinhado dessa maneira e transformado em escombros.  

Parece indubitável que a estátua foi erguida quando não havia quaisquer arranhões à conduta do jogador. Antecede à prática criminosa de que é acusado.

Com as exceções honrosas, se a moda pega, diminuirão, sobremaneira, as estátuas em praças públicas do Brasil, se os critérios forem esses: ficam lá, imponentes e reverenciados, somente os monumentos representativos de impolutos heróis de caráter irrepreensível.

Ativistas talvez fossem mais úteis à sociedade se preocupassem mais com as pessoas que passam fome – e são muitas, centenas, milhares – crianças desamparadas sem lar e sem escolas, moradores em situação de rua (Juazeiro deve ter alguns), esgotamento sanitário, falta de moradias, fiscalização da atuação dos agentes públicos em todos os níveis, vigilância quanto ao correto emprego do dinheiro do contribuinte et cetera.

Ativistas talvez fossem mais úteis à sociedade se lutassem por melhoria nos serviços públicos de saúde, eficiência no transporte de doentes, disponibilidade ambulatorial e remédios para a população carente.    

Entretanto, cuidar de famintos e socialmente desamparados não atrai holofotes.

No Brasil surgem ativistas para tudo. Há ativistas defendendo a Floresta Amazônica que nunca foram à região Norte. Outros defendendo o bioma caatinga que não conhecem um pé de xiquexique ou uma macambira; e outros tantos embevecidos no fanatismo político. Estes vivem abraçados ao patetismo sem nenhum pudor.   

De qualquer modo, Daniel Alves está sob o jugo da Justiça e das leis penais e processuais. É o bastante.

araújo-costa@uol.com.br  

Missa em memória de Da Luz Menezes

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé (II Timóteo, 4-7)

Crédito da imagem/Dr. Francisco Afonso de Menezes

No próximo dia 19/04/2024, às 19 h, realizar-se-á em Chorrochó liturgia eucarística em memória de Maria Rita da Luz Menezes.

A celebração acontecerá na Igreja Senhor do Bonfim.

Estarão presentes a saudade, as lembranças e, sobretudo, o intuito de todos familiares e amigos no sentido de viabilizarem a perpetuação da memória de Da Luz diante de Chorrochó e da Igreja.

“No  mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João, 16:33).

Vencer as aflições do dia a dia certamente foi uma das tarefas de Da Luz. Sofreu, chorou, lutou, suportou as adversidades, mas “combateu o bom combate e guardou a fé”. 

A Igreja de Chorrochó vai lembrar a vida de Da Luz e sua presença que foi muito frequente na casa de Senhor do Bonfim.  

A morte não pode interromper o amanhã. O amanhã dos parentes e amigos de Da Luz será sempre de boas lembranças. Lembranças de sua bondade e da convivência agradável. E de sua esperança na ressurreição.

araujo-costa@uol.com.br     

Traços dispersos de Curaçá e a professora Dionária Ana Bim

Maurízio e Dionária em foto de 2022 – Lançamento da 2ª edição do livro Barro Vermelho – Memória e Espaço, de autoria do filho jornalista/Crédito Maurízio Bim

Não sou memorialista, nem historiador. Faltam-me qualidades, esmero, dedicação, habilidade para discernir e observar a pureza dos fatos.

Entretanto, costumo rememorar acontecidos, pessoas, lembranças, episódios. Mais impulsionado pela saudade  e em gratidão às amizades com as quais mantive convívio nalguma quadra do tempo do que, propriamente, com o intuito de perenizar minhas opiniões que nada ou pouco importam.

O escritor e jornalista  baiano Raimundo Reis dizia, um tanto irônico: “Quem fala muito do passado é sinal que está ficando velho”.

É uma verdade que não se pode contestar.

Jovens, por óbvio, não têm muito o que contar, as reminiscências ainda não se firmaram, a memória está arejada pelo vigor da mocidade e sede de absoluto própria da juventude.

Os velhos têm o que contar, também por uma obviedade inarredável: a experiência, em razão da passagem do tempo, os idos, os vividos, a sequência de quedas e tropeços.

A poeira da estrada costuma ofuscar a caminhada, mas é eficiente ao marcar as intempéries, as lembranças, as saudades.

Nessa toada do caminhar, parece razoável entender que devo ter alguma coisa pra contar. Já alcancei os 72 anos, tempo suficiente para aproveitar o que os buracos da memória retêm e ainda me permitem lembrar.

Já me sinto em queda livre em direção ao despenhadeiro da finitude inevitável. As décadas de vida parecem assim atestar, o que não significa a abdicação dos sonhos, ainda relutantes, teimosos, insistentes.

Fraquejar jamais.

Hoje lembro Dionária Ana Bim, minha professora no Colégio Municipal Professor Ivo Braga, em Curaçá. À época muito jovem, embora preparada intelectual e profissionalmente.

Dionária foi educada sob a notável batuta da mãe Maria de Lourdes Lopes (Maria de Fortunato) e do pai Expedito, decentes e honrados em Curaçá.

Maria de Fortunato tinha clareza ao entender a educação como esteio que sustentava a grandeza e o caráter. Olhar atento de águia e sabedoria gigante, Maria alternava momentos de rigidez e ternura.

Em Salvador, Dionária estudou no tradicional Instituto Central de Educação Isaías Alves-ICEIA e já formada por lá foi ensinar Matemática em Curaçá.

Dionária constituiu família nobre. Tem filhos. Arrisco-me a citá-los: Mauro, João e Maurízio. Se omito algum nome, penitencio-me em razão da falha, da imprudência e da gafe.

Sobre Maurízio Bim, tenho a honra de dizer que sou seu amigo, embora apoucado. Considero-o muito e sempre lhe desejei êxito em suas façanhas e empreitadas, o que, aliás, ele sempre alcançou em tudo que decidiu fazer.

Guardo boas recordações da professora Dionária. O gosto pelas coisas sérias, a arte de direcionar o espírito para a investigação do conhecimento e, sobretudo, a humildade e o sorriso encantador.

A honra maior é ter sido seu aluno.

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Várzea da Ema e Marcones Reis

Marcones Reis/Reprodução perfil facebook

Encaminha-se para sete anos.

Em 28/07/2016 recebi de surpresa, em meu escritório, a visita de Edinaide, à época moradora em São Bernardo do Campo. Não sei se ainda mora por aqui.

Educada e atenciosa, Edinaide disse que esteve na Bahia e me trazia uma caneta, presente do amigo Marcones Reis, que lhe pediu para entregar em mãos, o que ela fez com absoluta presteza.

Marcones Reis é de linhagem conhecida em Várzea da Ema. Trata-se de rapaz decente, trabalhador, cumpridor de seus deveres, atento às coisas da vida nacional e voltado às suas raízes sertanejas.

A simpática Várzea da Ema está encravada nas caatingas do município baiano de Chorrochó.

Até hoje o lugar guarda as marcas do poderio de Petronilo de Alcântara Reis, conhecido como coronel Petro, que foi líder político e rico fazendeiro nos domínios dos antigos territórios dos municípios de Curaçá e Santo Antonio da Glória.

Paus Pretos, uma de suas lendárias fazendas ainda resiste às intempéries do tempo. Salvo engano, a fazenda é ou foi administrada por Paulo Reis, um dos netos do coronel Petro. Os alpendres do casarão ostentam os vestígios da riqueza coronelista.

Por lá também viveu Pedro Reis, que fazia parte do núcleo familiar do coronel Petro.

Dentre outras tantas, a fazenda Perdidos integrava as propriedades do coronel Petro.

Um dos homens mais poderosos do sertão baiano na primeira metade do século XX, ao lado do também coronel e seu compadre João Sá, o coronel Petro reinou absoluto no território de Santo Antonio da Glória, antiga Curral dos Bois.

Até hoje as marcas do coronel Petronilo de Alcântara Reis estão por lá. A família Reis continua sendo um esteio e referência de decência na região.

Mas volto ao início desta crônica para dizer que a passagem do tempo não me tirou a gratidão a Marcones Reis pela consideração e lembrança deste insignificante escrevinhador.

Guardo com carinho a caneta e anotei o fato em meus alfarrábios na tentativa de registrar aquele momento que me envaideceu e, sobretudo, torná-lo um retrato da amizade que fiz imorredoura.

Aproveito para parabenizar Marcones Reis que faz aniversário neste 07 de abril.    

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Coisas do sertão, esquisitices e escrevinhações

“Não é propriamente um lobo. É uma espécie de cachorro do mato, o guará. Cachorro sem dono, erradio, arredio, sem eira nem beira, vagando solitário pelo sem-fim do cerrado” (Antonio Félix de Souza, prefácio de Lobo do Planalto, de Paulo Dantas).

Lá para as bandas de Minas, os mais antigos usavam a expressão “coisas escorubiúdas” quando se referiam a esquisitices.

No meu caso, não chega a ser escorubiudices, mas não deixa de ser um tanto esquisita esta minha constatação: nunca vi um guará.

Mais esquisito do que constatar é dizer que nunca vi. O que interessa ao leitor saber se já vi ou não um guará?

Quando morava na caatinga do sertão da Bahia, muitas vezes vi rastros deixados na lama no Riacho da Várzea. Mas daí a afirmar que eram pegadas de guará vai uma grande distância.

Os mais velhos diziam que sim, havia guará por lá. Se havia, deve haver ainda.

Contudo, à semelhança dos fantasmas, ninguém via guará naqueles barrancos. Se bem que na caatinga muita gente garantia que costumava ver fantasmas ou, como se dizia, “alma do outro mundo”.

Outros iam mais além para dizer que viam aparições, figuras medonhas, sombras, mortos, esquisitices.

O Riacho da Várzea, arrimo de caatingueiros valorosos e tenazes, serpenteia, bravamente, entre cactos, pedras e vegetação esturricada, até chegar à foz. Seguramente, é uma das razões do viver do sertanejo do semiárido baiano.    

A imagem mais próxima que guardo de guarás é aquela muito conhecida do Santuário do Caraça, em Minas, onde os padres os alimentam e eles até ficaram amigos dos religiosos.

Parece que os primeiros intrusos surgiram no Santuário por volta da década de 1980.

No Santuário, definem o guará como “animal dourado de cauda curta”. É chamado guará porque em tupi-guarani, a língua dos indígenas, guará significa “vermelho”.

Lobo-guará/Igui Ecologia

Embora nunca tenha visto um, gosto do guará. Ele vive sem eira e nem beira, arredio, solitário, vagando, cauteloso, como muitos de nós.

Post scriptum:

Tenho uma mania, mais do que mania, despropósito: costumo escrever Riacho da Várzea. O correto é Riacho da Vargem, segundo os registros históricos e geográficos e a opinião de quem entende.

Não quero ser exemplo de apreciador de equívocos.

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Os respiradores de Rui Costa. Qual a novidade?

Rui Costa/Agência Senado

O UOL publicou em 03/04/2024, com estardalhaço, o caso dos respiradores do Consórcio Nordeste.

Em que consiste a novidade?

Nenhuma. Notícia requentada, fato já conhecido.

Já em 2021 era público e notório o escândalo que envolveu o então governador Rui Costa, do PT da Bahia, hoje todo poderoso ministro-chefe da Casa Civil de Lula da Silva, o maioral de Caetés.

Naquela ocasião o escândalo frequentou as páginas dos jornais exaustivamente. Deu em nada. Nem vai dar desta vez.

Rui Costa era presidente do Consórcio Nordeste e se envolveu nesse quiproquó que pode respingar negativamente em sua biografia.

Agora se sabe, com mais detalhes, segundo o UOL:

Rui Costa comprou 300 respiradores de uma empresa “fundada para distribuir medicamentos à base de canabidiol”. Noutras lavras: derivados de maconha;

Custo dos respiradores: R$ 48.748.575,82;

A empresa recebeu o valor adiantado e não entregou sequer um respirador. Dinheiro saído dos cofres públicos, claro.

Em 2022 a dona da empresa fez delação premiada, que foi homologada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em razão da prerrogativa de foro de Rui Costa.

Em resumo, a delatora disse que:

Devolveu R$ 10 milhões e apresentou extratos das transferências de dinheiro para os intermediadores do negócio;

Faltou dizer onde estão ou foram parar os outros mais de R$ 38 milhões;

“O contrato foi redigido de forma desfavorável ao governo da Bahia” e “a negociação só avançou porque tinha a autorização do então governador Rui Costa, que assinou o contrato”;

A empresa não possuía a documentação exigida para importação de equipamentos hospitalares;

“Essa documentação nunca foi solicitada por nenhum agente vinculado ao governo e não foi empecilho à contratação”;

O negócio foi viabilizado por um amigo de Rui Costa e de sua mulher Aline Peixoto, enfermeira e funcionária da secretaria estadual de saúde da Bahia e hoje conselheira do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia;

As tratativas com a empresa deram-se através do secretário da Casa Civil de Rui Costa, Bruno Dauster;

A empresa “não possuía qualificação nem experiência na importação de respiradores pulmonares”;

A empresa tinha apenas dois empregados e capital social de R$ 100 mil;

Foi Rui Costa quem passou o contato da empresa para seu secretário da Casa Civil e recomendou a compra dos respiradores;

O contrato foi redigido pela empresa e não pelo governo e “não previa nenhuma garantia caso os respiradores não fossem entregues e essa garantia nunca foi exigida nem mencionada por nenhum agente do Consórcio Nordeste”;

Em 29/07/2021 este blog publicou matéria neste sentido com o título Os respiradores de Rui Costa.

Lá uma citação da Revista Veja.

A revista Veja apurou: “O negócio, fechado a toque de caixa através do WhatsApp  e com pagamento adiantado, previa a compra e a distribuição dos equipamentos aos nove estados da região”. A revista vai além: “O negócio, desde o início, foi planejado para dar errado” (Veja, 23/07/2021). 

Mais, segundo a Veja: “A microempresa, como se sabe, na verdade aplicou um monumental golpe: sumiu com o dinheiro e nunca entregou as máquinas”. 

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